Apraz-me saber que, em Portugal, as tradições carnavalescas continuam a ser cumpridas à risca com o lema de que “a vida são dois dias e o carnaval três”, com toda aquela alegria e o simbolismo próprio da época, apesar de se ter importado o samba brasileiro, pois jamais devemos perder a nossa identidade cultural!
No princípio, o Carnaval era só uma festa de rua, mas bastante caótica, onde só se cometiam grandes excessos, tendo a Igreja Católicano século XI, colocado um ponto final a tudo isso, que por influência da Commedia dell’Arte, na época do Renascimento, foram sendo criados os vários desfiles e bailes de máscaras a que assistimos hoje.Portanto, a festa de Carnaval surgiu aquando da instituição das celebrações da Semana Santa, antecedida por 40 longos dias de jejum: a Quaresma. 
E durante esses três dias de folia e brincadeira que antecediam esse mesmo período de penitência, todas as pessoas se juntavam, trocavam presentes entre si, comiam e bebiam a toda a hora, chegando até à própria eleição de um rei! 
A origem de Carnaval está pois relacionada com a junção das palavras latinas “carnis” (carne) e “valles” (prazeres).
Mas muito embora se fale em Carnaval, também se pronuncia a palavra Entrudo, porque ambas as expressões simbolizam o mesmo período. 
Acrescente-se ainda que Carnaval é a expressão mais utilizada no meio urbano, derivando da palavra italiana carnevale, que dá lugar à “despedida da carne” antes dos tais quarenta dias de jejum; mas também há quem relacione com a expressão carrusnavalis, dizendo antes respeito a uma festa romana em que um carro em forma de navio desfilava pela capital do Império e oferecia grandes quantidades de vinho aos seus habitantes. 
Quanto à expressão Entrudo, esta por sua vez será antes uma expressão mais utilizada no meio rural, nomeadamente a norte do país, como Trás-os-Montes, derivando do latim introitus, que significa a “entrada” na Quaresma, utilizada pela primeira vez no século XIII
Antigamente, a época do Entrudo começava no Dia de Reis, a 6 de janeiro. A partir daí, os domingos eram assinalados por festas, já por si carnavalescas, sendo conhecidos por Domingos Gordos, pois ainda há a expressão da “terça-feira gorda“, significando o dia em que as festas atingiam o seu ponto mais alto, ou seja, o seu “ponto mais gordo“.
Desta forma, a gastronomia portuguesa começou a dar destaque a duas grandes iguarias: a carne de porco e as filhós; em que o lema era “no Entrudo come-se de tudo“, tendo nascido as intituladas Feijoadas de Carnaval.
RECEITA NA CATEGORIA DE CARNE: Feijoada de Entrudo à Transmontana

Ingredientes:
  • 1 kg de feijão branco grande
  • 400 grs de carne de porco entremeada (barriga) salgada
  • 1 orelha
  • 500 grs de focinho
  • 1 pé de porco (tudo fumado)
  • 1 salpicão
  • 1 colher de sopa de colorau
  • 4 bagas de pimenta preta
  • 1 malagueta picante
  • sal
  • 1 cebola grande
  • azeite

Confeção:

  1. Numa panela, põem-se o feijão demolhado de véspera, água para o cobrir largamente e todas as carnes.
  2. Deixa-se cozer tudo, retirando as carnes à medida que forem cozendo.
  3. Limpa-se o caldo da espuma escura.
  4. À parte, pica-se e aloura-se a cebola com o azeite.
  5. Deita-se este refogado na panela onde está o feijão.
  6. Cortam-se as carnes e voltam a juntar-se ao feijão.
  7. Tempera-se com o colorau, a pimenta preta em grão e a malagueta picante cortada em bocadinhos.
  8. Deixa-se apurar sobre lume brando.
  9. Rectifica-se de sal.
  10. Acompanha-se com arroz de forno, servido à parte.
  11. O arroz de forno, como se viu já, como que faz parte integrante das feijoadas – pelo menos das feijoadas transmontanas.

Quanto às Filhoses de Carnaval, também intituladas de Orelhas de Abade, dizem que é o próprio escárnio dos muçulmanos contra os cristãos, em que o sagrado alimento da sua religião, o pão, passou a dar lugar a um pequeno pedaço de massa frita!

RECEITA NA CATEGORIA DE SOBREMESA: Filhós Estendidas

Ingredientes:
  • 1,5 kg de farinha
  • 1 dl de azeite
  • 1 colher de chá (bem cheia) de sal
  • 1/2 dl de aguardente branca
  • sumo de 3 laranjas grandes
  • 7 a 8 ovos
  • 100 grs de manteiga
  • azeite para fritar
  • açúcar e canela para polvilhar
Confeção:
  1. Peneira-se a farinha para um alguidar e escalda-se com o azeite a ferver.
  2. Depois com as mãos misturam-se o melhor possível estes dois ingredientes desfazendo os caroços que se formaram.
  3. Faz-se uma cova no meio da farinha e deitam-se aí 1 dl de água tépida onde se desfez o sal, a aguardente, o sumo das laranjas e 3 ovos.
  4. Começa então a amassar-se juntando os ovos à medida que a massa os vai obsorvendo.
  5. Quando se considerar que a massa está pronta, isto é, quando a massa estiver elástica e não se pegar ao alguidar, junta-se a manteiga e mistura-se bem.
  6. Tapa-se a massa com um pano e deixa-se repousar durante 2 horas, pelo o menos.
  7. Depois, com o rolo e o mínimo de farinha estendem-se as filhós e cortam-se em rectângulos ou circunferências com a ajuda de uma carretilha.
  8. No centro de cada filhó dão-se 4 golpes que não deverão atingir os bordos da massa.
  9. À medida que se vão estendendo e cortando, colocam-se as filhós sobre um pano ligeiramente empoado de farinha, ou melhor, para evitar que as filhós sequem, devem, na medida do possível, ir-se fritando em azeite bem quente.
  10. Há diversas maneiras de pegar nas filhós para as fritar no azeite.
  11. A mais corrente consiste em introduzir os dedos nas tiras formadas pelos golpes.
  12. Assim: passam-se os dedos da mão direita na 1.ª e 3.ª tiras deixando cair a 2.ª e a 4.ª que serão amparadas com a mão esquerda.
  13. Depois de fritas e louras, escorrem-se as filhós sobre papel absorvente.
  14. Polvilham-se com o açúcar e canela ou passam-se por uma calda de mel como se diz para as filhós da Beira Baixa.
Nota: No Alentejo, nomeadamente em Évora, é costume fazer estas filhós na Quinta-Feira das Comadres em quantidade suficiente para três dias do Carnaval. Ainda não há muitos anos, os amigos e os vizinhos mascaravam-se e visitavam-se uns aos outros para comerem as Filhós e outros fritos, acompanhados de Licores caseiros ou de Vinho Fino (Vinho do Porto). As Filhós são ainda utilizadas como Presente, que se troca entre Amigos e Vizinhos.
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