MARIA LUÍSA E O TRÁGICO ACIDENTE

Lá estava ela sentada no parapeito da janela do seu quarto, a olhar para longe, para muito longe…

O sol, esse, radiante como sempre, já ía alto, como que desejoso de atingir à pressa o cume da montanha mais alta do mundo. Mesmo assim, ainda se fazia sentir uma certa maresia no ar, com um forte sabor a doce e a azedo ao mesmo tempo, a passar pelos seus lábios carnudos pintados de um vermelho discreto, muito embora as papilas gustativas, as nomeadamente presentes no seu nariz esguio, apelassem à boa sardinha assada, gorda, pingando sobre o pão, de pele solta e carne firme: este era, sem dúvida, o grande almoço habitual às segundas feiras, ora o dia mais propenso à apanha certeira desse tipo de peixe por parte dos pescadores da praia da Nazaré, onde se incluiria, desde que se lembra, o seu querido avô paterno, bem para lá do fenómeno cada vez mais conhecido das ondas gigantes liderado pelo surfista havaiano Garrett McNamara aquando o ano de 2011!

E, de repente, o vento quebrara-lhe o silêncio e Maria Luísa quase cai para trás – “Ops! Tombei o cavalete com a minha tela pintada de fresco!”. Pois bem, Maria Luísa é de facto o seu nome, porém tem uma péssima relação com o passado, preferindo falar, de uma forma bastante insistente até, do amanhã e do dia depois do amanhã…

Em boa verdade vos digo: os avós paternos tomaram a decisão certa de a adotarem como filha, continuando a dar-lhe tudo o que podem e não podem, ainda que não tenham muitas posses, desde aquele dia trágico do acidente de viação, em que perdera, para sempre, ambos os seus pais. Maria Luísa também não tem quaisquer irmãos, sendo o seu maior sonho o de dar a volta ao mundo de barco à vela, em busca do tempo perdido, sendo unicamente guiada pelas estrelas e planetas durante a noite e pelas gaivotas e golfinhos durante o dia. Debaixo da sua cama esconderá, certamente, o seu mais pequeno diário, repleto de todas aquelas fotografias envelhecidas e a cheirar a mofo, em que ela própria procura isolar-se, interpretando esta vida presente unicamente como a passagem para uma vida melhor!

De facto, a praia da Nazaré passara a ser a sua nova morada desde aquele dia horrendo de regresso a Viseu, a sua terra natal, em que viajava no banco de trás do carro, sentada numa daquelas cadeirinhas adaptadas às suas recentes 6 primaveras. Já de seguida, apresenta-se o relato de toda esta vivência, retirado então do lugar mais íntimo para uma jovem adolescente de 16 anos, o seu diário: 

«Foi um dia horrível, aquele em que eu ficara para sempre sozinha, a partir do momento em que outro carro se aproximara violentamente… só sei que cerrei fortemente os olhos… não me lembro de mais nada, pois só acordei muito tempo depois, já deitada de barriga para cima, numa maca, nas urgências de um hospital qualquer, rodeada por várias pessoas vestidas de branco… sentia-me severamente perturbada, excessivamente perturbada… perguntei logo se por acaso alguém tinha visto o meu urso de peluche, que eu trazia agarrado ao meu pescoço… mas, infelizmente, só me deram a notícia mais inimaginável deste mundo: “Maria Luísa, é esse o teu nome, certo? Muito bem, vou dar-te uma notícia muito triste, mas tu és uma menina forte e os teus avós estão ali à espera que eu lhes dê a devida permissão para virem até cá rodearem-te de muitos beijinhos; e descansa que eles trouxeram o teu ursinho de peluche preferido! O que aconteceu foi que, infelizmente, os teus pais já não poderão estar mais contigo, mas em contrapartida irão estar à tua espera num lugar muito mais bonito, perfumado, quem sabe até pelas flores mais belas do teu jardim, onde a partir de hoje irás passar a viver, rodeada de sol e mar, podendo ir à praia todos os dias… olha que sorte!” Ou seja, o tal embate fora de tal maneira violento, que todos os vidros se partiram de imediato e todos os pneus rebentaram num estrondo só, para além do facto de que logo a seguir o carro fora exatamente lançado ao encontro de uma daquelas árvores à beira da estrada, não conseguindo, os meus pais, resistir mais… o meu pavor ultrapassara quase todos os limites…»

E foi assim que, quando lhe deram a tão ansiosa «alta», Maria Luísa desatou num ataque de choro inconsolável ao colo da sua avó Alice Medeiros, mãe do seu pai Joaquim Sousa, um homem bom e honesto, cuidador dos seus, bem como a sua mãe, Joana Sousa, uma mulher bastante simples, e muito bonita, por sinal, com os seus longos cabelos negros. 

E, no momento exato em que calhara a colocar os pés descalços sobre o chão frio de mármore do dito hospital, surtiu um efeito tão catastrófico dentro de si, que acabou por sucumbir de vez nos braços trémulos, agora os do seu avô, humedecidos pela acidez das próprias lágrimas que iam caindo entre os dois, deixando de conseguir exclamar qualquer palavra ou ditongo a partir dali, que desconsolo!

Mas o médico explicava-lhes que, por se tratar de uma situação deveras traumatizante para a idade dela, tinha-se de dar tempo ao tempo, havendo sempre uma esperança para a menina voltar a falar tal como antigamente: “Olá D. Ana, como vai a vizinha? E o Sonecas, esse gato matreiro, já fez maldades outra vez? Posso fazer-lhe uma festinha? Posso levá-lo comigo?

Entretanto, o sino da igreja começou a tocar, era meio-dia em ponto; ou seria antes alguém a bater à porta do lado de fora do quarto, já que se encontrava trancada à chave? Maria Luísa levantou-se, portanto, algo interrogada, dando um pequeno jeito às tradicionais «sete saias» que lhe apetecera vestir, pois aquele era o seu dia de aniversário, mas também dia de Natal. Depois apressou-se a rodar a chave e… “Parabéns Luisinha! Um beijo grande pelos teus 16 anos! Viva!”. E foi o abraço mais afetuoso que sentira até àquele dia, tratando-se do seu avô, e logo a seguir da sua avó, não sabendo muito bem o porquê de todas aquelas sensações novas.

Para finalizar esta pequena história, em resultado deste momento tão afetuoso entre estas três magníficas personagens, Maria Luísa exclama, “Obrigada, vocês são os melhores pais do mundo!

Termino então, desta forma surpresa, com todos a rirem-se às gargalhadas, como se o mundo não existisse mais, bem para além daquela esfera harmoniosa, em volta dos seus corpos unidos, para logo a seguir enfeitarem a árvore de Natal em conjunto e trocarem presentes entre si, nomeadamente as típicas Bolachas de Gengibre e Canela, tão absolutamente irresistíveis, sejam elas simples ou decoradas, para servir na mesa de Natal ou oferecer a quem mais amamos, uma tradição absolutamente natalícia tanto na América do Norte como na Europa, tendo surgido como prenda na Rússia, durante o século IX, mas também através da própria Rainha Isabel I, de Inglaterra, ao decidir mandar fazer, para uma festa de Natal, estes mesmos biscoitos com a cara dos convidados…

E assim viveram felizes para sempre!

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