«Mandar alguém às urtigas», para que não nos aborreça mais, tornou-se um dito corrente. E se de facto, a expressão indica menosprezo por quem nos incomoda, também não coloca em alta conta, a urtiga, «erva desprezível» que queremos ver longe de nós. Trata-se de uma tremenda injustiça, aproveitamos para dizer e mais à frente explicaremos porquê.

Não restam dúvidas que a urtiga está disseminada por todo o lado e que as suas picadelas não são nada agradáveis. Por isso mesmo, é das plantas silvestres mais conhecidas. Diremos mesmo, não há ninguém que não a conheça. Para quê então, vir aqui falar dessa ervinha que toda a gente tem a «desdita» de conhecer? Na verdade, as aparências iludem, dado que a urtiga ocupa lugar de destaque na fitoterapia e não só.

 

 

Existem várias espécies de urtigas, mas todas elas pertencem à família das Urticáceas e têm propriedades praticamente iguais. Entre nós, a mais profusa é a Urtica dioica que alastra por todo o país. Chega a atingir 1,5 m de altura, tem caule ereto e folhas ovais, opostas e dentadas. As flores, de cor verde, ramificam-se em espigas colocadas nas axilas das folhas superiores. Toda a planta está coberta de finos pêlos cuja picada origina muita comichão devido a conter um produto histamínico. Esta propriedade constitui uma defesa da própria planta que assim fica menos apetecível para os diversos animais.

Para além da histamina, a urtiga contém numerosos compostos, ácido fórmico, caroteno, abundante clorofila, tanino, ferro, potássio, cálcio, enxofre, silício e é rica em vitaminas C, B2 e B6. Tal constituição implica variadíssimas propriedades, entre as quais, a de ser depurativa, anti anémica, hemostática, antidiabética, etc.

 

Vamos agora detalhar alguns dos seus potenciais usos, cujos efeitos benéficos se encontram comprovados, surpreendendo, por ventura os mais desprevenidos.

Em primeiro lugar, queremos referir que a cáustica picada da urtiga é extremamente útil para os doentes de reumatismo, paralisia e deficiente circulação sanguínea. Esfregar a pele com urtigas provoca uma excelente reação nas pessoas fracas e anémicas. Escritos antigos apontam mesmo, como muito eficaz, a fricção do baixo-ventre como meio de estimular as funções sexuais, quer para homens, quer para mulheres. Não custa nada fazer a experiência! 

(Um breve parêntesis para referir que quando esta minha croniqueta foi publicada no jornal local alguns idosos que se reúnem todos os dias no largo principal da vila abordaram-me alegremente falando deste pormenor. O artigo era vasto mas eles só se detiveram neste detalhe. Logo pensei: 
– Queres ver que eles já experimentaram ou estão a fim de experimentar!)

 

O «chá» de urtigas (30 g de folhas secas para um litro de água, ou 60 g da planta verde, o que é preferível) é bom para os diabéticos e anémicos. Para uso externo (irrigações) estanca as hemorragias. Melhor será, contudo, utilizar o suco da urtiga, tomando-se uma colher de sopa, duas ou três vezes ao dia. Há naturopatas que recomendam ainda a decocção, a maceração, ou o xarope.

Em cosmética é famosa a ação da urtiga para o tratamento do couro cabeludo e da queda do cabelo. Diversas loções capilares são preparadas com base nos seus princípios ativos.

 

Muita gente ficará espantada e incrédula se lhes dissermos que as urtigas podem ser consumidas como qualquer legume hortícola. Pois é verdade, a urtiga entra também na gastronomia onde poderá ter um lugar de maior destaque se as pessoas abandonarem preconceitos e tabus. Como? Muito simplesmente como se de nabiças ou de espinafres se tratasse. Basta passar as plantas por água tépida para que deixem de picar. Depois separam-se os talos (demasiado fibrosos) e aproveitam-se as folhas que são ótimas para a confeção de sopas e outros pratos cozinhados. Não conhecemos melhor esparregado do que o de urtigas. Devido ao alto teor de clorofila, o esparregado mantém uma cor verde agradável, ao contrário do que acontece em determinados restaurantes onde o verde vivo do esparregado se deve à utilização do bicarbonato de sódio. O sabor? É agradável e ninguém descobre que provém das urtigas, se não lhe dissermos.

Finalmente queremos ainda acrescentar que estudos efetuados acerca dos efeitos das associações vegetais revelaram que a presença da urtiga melhora o desenvolvimento de outras plantas, como as ervas aromáticas, cujo teor em essências sai reforçado

 
 
Miguel Boieiro
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10 Comments

  1. Mónica Rebelo 6 Novembro 2018 at 14:40

    Olá! Obrigada pelo comentário! Entretanto, já fui ver os seus dois blogues e já sou seguidora de ambos, tendo reparado que também gosta de receitas, certo? Boas continuações para os seus projetos, gostei muito!
    Mónica Rebelo do blog Cozinha Com Rosto.

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  2. Mónica Rebelo 5 Novembro 2018 at 18:07

    Pois… já agora, por acaso já ouviu falar da intitulada "Confraria da Urtiga"?
    Beijinhos,
    Mónica Rebelo do blog Cozinha Com Rosto.

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  3. Mónica Rebelo 5 Novembro 2018 at 18:05

    Então ainda bem e obrigada pelo seu testemunho!
    Mónica Rebelo do blog Cozinha Com Rosto.

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  4. Coisas de Feltro 5 Novembro 2018 at 18:03

    É interessante na provincia faziam, inclusivamente, um cataplasma para problemas de pele. Não sei é se misturavam com outro produto ou aplicavam apenas moída.

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  5. Mónica Rebelo 5 Novembro 2018 at 15:19

    Muito obrigada pelo comentário, pois ainda há muito por descobrir no reino das plantas, porque tal como as urtigas, nós também temos as nossas defesas, mas também temos as nossas qualidades, apenas as urtigas não se conseguem exprimir como nós, tudo de bom!
    Mónica Rebelo do blog Cozinha Com Rosto.

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  6. Os Piruças 5 Novembro 2018 at 15:15

    Muito interessante. Parabéns por este post, para mim achei-o muito útil.

    Cumprimentos Os Piruças

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