Daniela Batalha, de 26 anos de idade e natural de Águeda, foi a grande vencedora, no passado dia 18 de dezembro de 2018, da 7.ª edição do concurso nacional de gastronomia “A Mesa dos Portugueses”, com a “Sopa à Moda da Minha Avó”!

E tal como eu já tive a oportunidade de comprovar, aquando das minhas participações nas edições de 2015 e 2018, o grande objetivo desse mesmo concurso tem sido sempre o de estimular a confeção de pratos com produtos de origem portuguesa, ou seja, o de contribuir para a valorização do nosso próprio património gastronómico, o que eu aplaudo!

Sendo assim, eu tomei a iniciativa de entrevistar Daniela Batalha, para, enfim, a ficarmos a conhecer um pouco melhor e saber, afinal, qual é que irá ser o seu projeto de vida, a partir de agora, agradecendo, desde já, o facto de ter aceite esta minha proposta:

1. Para iniciar esta nossa conversa, gostaria de começar por lhe colocar a seguinte questão: como é que foi então ganhar o grande prémio da 7.ª edição do concurso nacional de gastronomia “A Mesa dos Portugueses” e o que é que sentiu exatamente no momento em que o seu nome foi revelado como sendo a grande Vencedora?

Daniela Batalha: Já me perguntarem isso várias vezes, mas continuo a dizer o mesmo: quando me fazem essa pergunta, eu ainda sinto as borboletas na barriga e acho que vou sentir sempre, porque foi incrível, foi indiscritível mesmo, muitas lágrimas… houve alguns vídeos, fotografias… foi muita emoção junta!

Tinha lá a minha avó e nós passámos por muito coisa juntas, a nível familiar, nestes últimos dois anos: perdi a minha bisavó que faleceu em 2017…

Portanto, o que eu quero fazer na minha vida é: fazer coisas que sejam um tributo aos que eu amo, porque eu acho que elas merecem isso mesmo, que o mais importante na minha vida é e vai ser sempre a família, venha o que vier, mesmo que esteja tudo muito bem; se me acontecer alguma coisa, é para lá que eu vou, porque eles apoiam-me incondicionalmente!

E como no ano passado fiquei em segundo, este ano estava na incógnita, se ía ou não ía ganhar, tinha receio de não conseguir fazer igual ou melhor, porque sou muito perfecionista…

E quando soube que tinha ganho, aquela carga de tudo o que eu tinha andado a acumular, foi incrível mesmo e não conseguia acreditar… e ainda não consigo!

2. Já agora, qual é que foi o seu grande segredo utilizado na confeção da intitulada “Sopa à Moda da Minha Avó”? E será que nos pode revelar mais ou menos a receita?

Na cozinha não há segredos…

Eu acho que quando vendemos certos produtos, aí sim, às vezes não é a altura certa de os revelar, porque há alturas certas para divulgar certos pormenores, portanto até aí tudo bem, mas eu sou adepta de realmente partilharmos, porque se as pessoas não partilharem, as coisas caiem em esquecimento, portanto não faz sentido guardarmos as coisas fechadas…

E a sopa não tem segredos, até porque a receita está lá, se quiseres fazer a sopa, ela se calhar vai sair diferente, e se for outra pessoa a fazer, se calhar vai ter um sabor novamente diferente, porque eu acho que a emoção que tu colocas nas coisas associada às memórias é o que se transmite depois muito no prato final!

A cozinha, para mim, é isso mesmo, por isso é que eu a escolhi: eu consigo passar a emoção daquilo que eu sinto e tu consegues ver de facto a emoção existente nas pessoas, por isso é que foi muito importante ganhar, também devido ao feedback das pessoas, porque quando vêm a sopa, principalmente lá na minha zona, muita gente envia-me mensagens do género “consegues ter memórias muito antigas à custa da sopa”, e isso, para mim, é incrível!

E pronto, não tem segredos, é uma sopa, é um caldo: fazes um caldo com água, colcas a água a ferver, um bocadinho de azeite só, carne com feijão (este é um feijão que eu não sei muito bem qual é, mas ando a tentar descobrir, porque a minha avó diz que já está há muitos anos na nossa família e é um feijão vermelho, mas muito pequeno, tendo-o para semente há muitos anos, e não sabe dizer qual é, não o encontra à venda e eu também não… eles eram agricultores, a minha bisavó também… lá está, às vezes vão ficando na terra, depois começam a haver cruzamentos…)

Portanto, é uma sopa simples: colocas um bocado de feijão, colocas os legumes (podem ser diferentes daqueles meus, podem ser da época), fazes um pão e colocas a carne por cima e está feito e comes com a família!

 

(fotografia retirada de https://www.jb.pt/)

3. Mas tendo em conta algumas pesquisas que eu fiz pela Internet, a Daniela já tinha participado noutras edições do mesmo concurso, certo? E quais é que foram as receitas escolhidas nesses anteriores concursos e porquê?

Daniela Batalha: Já tinha concorrido ao mesmo concurso no ano passado e este ano participei nas cinco categorias também, porque eu vou com tudo ou não vou com nada, gosto de ter as probabilidades a meu favor, porque eu acho que se temos essa possibilidade de concorrer, porque não, não tenho nada a perder!

No ano passado: fiquei bem colocada com as Esperanças, que ganhou a categoria de doces; levei também Sopa de Peixe, Cabidela de Leitão da nossa zona, Massada de Peixe…

Este ano: levei Torresmos e Peixe do Rio, que também é da minha zona; ainda tentei fazer uma coisa diferente, umas Migas com Ovas, e voltei a pegar na Cabidela, porque eles tinham achado a ideia boa, mas em termos apelativos não, logo fiz um Arroz com a Cabidela dentro do tachinho, levei então a Sopa e ainda criei umas Tarteletes com uma massa quebrada de iogurte e umas papas de abóbora, que também é daqueles doces que se comem sempre, um Curd de Limão e um Gel de Frutos Vermelhos…

E de bacalhau, fiz uns Pasteis de Massa Tenra de Bacalhau com Arroz de Tomate, pois é uma coisa que se faz na minha casa sempre…

Nunca pensei que fosse a sopa a passar, sou sincera, é um símbolo de Portugal!

Depois, quando eu soube, eu realmente comecei a pensar porque é que tinha passado, e o que eu achei foi que realmente é um prato bastante completo: tens a carne, é um prato rico, e não é por ser meu, porque outra pessoa podia ter tido a mesma ideia… mas é muito completo e era o que os meu avós davam aos pobres, portanto fez sentido para mim!

4. E de momento, o que tenciona fazer ou continuar a fazer na sua vida? Por acaso tem recebido algumas propostas de trabalho ou então a ver com formação?

Daniela Batalha: É para continuar na cozinha, é isto que eu quero e, portanto, a cozinha vai ser a minha vida, a partir de agora!

Eu também gosto muito de estar na parte da comunicação: gosto muito de falar com as pessoas, de incentivar as pessoas… estou no Facebook, mas um bocadinho de forma inexperiente ainda, mas é isso que eu quero fazer e incentivar as pessoas que toda a gente consegue, desde que queiram, porque toda a gente consegue e temos de trabalhar muito para as coisas acontecerem!

Vou ficar por uns tempos em Lisboa, vou tentando manter o meu projeto lá em cima, se calhar agora de outra forma, mas continuo a dar os ShowCookings, pois já tenho um para julho, lá na minha zona.

Estou ainda a dar formação numa escola do Porto, na Caketerie, e espero também conseguir conciliar isso… aquilo que eu sei, gosto de passar para as pessoas, tal como eu gosto que façam comigo!

E pronto, também já falei do projeto do livro: gostava de escrever um livro, ou seja, de compilar, mais uma vez, receitas e memórias… e espero que alguém me apoie, vamos ver!

E basicamente é isso: há um projeto na televisão também, uma rubrica, e vamos tentando conciliar tudo e eu estou aberta a novas possibilidades, a novos projetos…

Estou no início, portanto vamos aproveitando o que houver e tentando analisar as possibilidades!

5. Uma curiosidade: como é que nasceu o seu gosto pela cozinha e qual o seu maior ídolo?

Daniela Batalha: Eu não sigo ninguém em especial, porque quando me surgiu o gosto pela cozinha, foi por terapia, foi por instinto natural, não foi nada forçado…

“Ai porque agora é moda e vou virar cozinheira”, não, foi uma coisa que foi natural, no início a justificação era a minha mãe e a minha avó, por isso fui sempre pegando em coisas que elas faziam… e dar o cunho pessoal é mais importante do que todo o resto das cozinhas!

Gosto muito da Filipa Gomes, por exemplo, ela não tem formação na área, mas identifico-me muito com ela, porque eu sou um bocado como ela: ela tem paixão pela cozinha e não tem tabus… não gosta de conceitos definidos e eu odeio conceitos definidos, não sou “ovelha de seguir rebanhos”, gosto de ser eu…

Gosto muito do Jamie Oliver, pelo à vontade que tem também pela cozinha descontraída: a cozinha deve ser descontraída, descomplicada, descomplexada, e não devemos ter medo de arriscar nem de combinar certas coisas, pensando que depois não vão fazer sentido…

Cá em Portugal, também gosto muito do trabalho do Gonçalo Costa, por exemplo, ali no restaurante Tágide, eu não o conhecia muito bem, mas agora gosto do trabalho dele, porque também vai muito às raízes!

Gosto muito do trabalho do Vítor Adão, identifico-me bastante com ele: também pega muito no que é da terra dele e tem dado a conhecer a sua terra de uma maneira reinventada…

Gosto igualmente do José Avillez e do seu tipo de cozinha…

Gosto de Ann Kristin, porque gosto da parte estética: a cozinha tem de cheirar bem, tem de saber bem, tem de ser bonita e apelativa, tem de ser um conjunto dos 5 sentidos!

6. Costumamos ouvir dizer que as mulheres do Norte têm mais “pêlo na venta”: será que é verdade e qual é que é a característica mais marcante em si?

Daniela Batalha: Não sou considerada “mulher do norte”, mas sim, acho que tenho “pêlo na venta”: eu não tenho problemas de dizer o que tem de ser dito, portanto sou muito frontal, mas não gosto de ser assim de vez em quando, eu sou mesmo assim…

Portanto, eu sou muito transparente: quando tenho de rir, riu, se tiver de chorar, choro, não consigo disfarçar; às vezes até sou criticada por isso, mas eu sou assim…

Então sou muito honesta e sou mesmo muito franca: não gosto de hipocrisia, e isso não tem de ser do norte ou do sul, eu sou mesmo assim e esta foi a minha educação!

7. No que diz respeito à sua cidade natal, o que é que para si não podemos deixar de visitar ou de saborear?

Daniela Batalha: Eu sou de Espinhel, que pertence ao concelho de Águeda.

Lá, para visitar, agora temos o mais recente projeto que surgiu em 2012, a Umbrella Sky…

Há um evento em julho, o AgitÁgueda, que é durante o mês inteiro; paralelamente nesse mês, quase todas as ruas de Águeda ficam decoradas com chapéus de várias cores e é muito bonito, porque temos espetáculos de rua e pintura: vêm artistas de outros países fazer pinturas em certos monumentos, paredes, bancos…

Depois em Pinhel, temos a pateira de Espinhel e a pateira de Fermentelos, que também é muito visitada!

E o que é que temos mais (?!) não há muito mais a visitar, é uma cidade pequena, porque não é como Lisboa, por exemplo, em que em cada esquina tens algo para visitar; mas também há restaurantes que valem a pena, onde tudo depende do tradicional: o cabrito, o peixe do rio, o leitão à Bairrada (este é um dos ex-libris), o Pastel de Águeda (foi este grande pastel que serviu de grande inspiração às Esperanças, que estão já registadas – é o meu bébé, o meu primeiro filho…), o bolo de Natal de Águeda…

8. Para terminar, sendo “nós somos o que comemos” o lema deste Blog Cozinha Com Rosto, qual é que é a sua opinião pessoal acerca da importância de se praticar ou não uma alimentação mais ou menos cuidada para se conseguir usufruir de uma vida saudável? Pratica algum tipo de dieta especial?

Daniela Batalha: Sim, claro que é importante: neste momento, a minha comida não é muito equilibrada, aliás, a minha alimentação não é de todo equilibrada, mas acho que toda a comida deve ser equilibrada… e tornou-se mais complicado quando eu comecei a cozinhar mais!

Depois de começar a cozinhar, o meu marido engordou muito, daí eu ter de fazer uma dieta para ele emagrecer e aí era só comida saudável; agora, lá em casa, à noite, na maior parte das vezes, não comemos hidratos, para tentar equilibrar os excessos, e comemos muito peixe grelhado, não exageramos assim tanto, eu depois estrago é com doces… mas sim, acho que deve haver um equilíbrio!

Acho que não deves comer é só comida saudável, falo por mim, pois a nível psicológico eu também preciso do exagero e acho que toda a gente precisa, tanto na alimentação como noutras coisas, não devemos privar-nos disso por obrigação, porque eu acho que não é saudável e interfere até muito a nível emocional e pessoal.

E neste momento não pratico nenhuma dieta em especial, porque eu como de tudo um pouco, e variar a alimentação, isso sim, é que é o ideal!

 

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